Por: Amanda Nobre e Beatriz Pontes
Na contramão do imediatismo, Daniela Arbex defende o espaço do jornalismo aprofundado e humanizado. A jornalista e escritora esteve em Palmas no último mês na Festa Literária do SESC Tocantins.
Em uma era em que a informação está na palma da mão, é paradoxal que estejamos tão desinformados. Não surpreende que, em uma sociedade que busca um saber imediato, haja pessoas que se contentem apenas com a leitura de manchetes e não se aprofundem na matéria. Nessa perspectiva, o jornalismo tende a acompanhar o público e alguns veículos se mostram cada dia mais interessados em serem os primeiros a publicarem um furo de reportagem do que, de fato, gastar tempo em investigações mais elaboradas. Analisando este cenário, pode-se questionar se ainda existe espaço para jornalistas literários que dedicam anos em uma mesma pauta, e que quando enfim publicadas já abandonaram a discussão popular. Onde encaixar um jornalismo aprofundado em uma era efêmera?
Daniela Arbex, autora de obras como Holocaustro Brasileiro e Todo Dia a Mesma Noite, já apresentava esse questionamento em 2016, em um texto comemorativo ao dia do jornalista, publicado na Tribuna de Minas, ela reflete o papel dessa profissão que, segundo ela, teve o óbito declarado tantas vezes. O questionamento de nove anos atrás ainda persiste.
Em participação na Festa Literária do Sesc Tocantins, na mesa intitulada “A Realidade Recontada: Como Fatos Inspiram a Escrita”, que ocorreu no dia 27 de agosto em Palmas (TO), Daniela, em entrevista à Sagaz, discorreu sobre o tema ainda tão atual. Para ela, em uma época em que todos podem produzir conteúdo, o jornalismo de qualidade se destaca:

“A gente se preocupa muito com essa campanha de ódio contra o jornalismo e essa tendência à superficialidade da notícia, mas o jornalismo de qualidade mostra o impacto que ele pode causar na sociedade. Então como a gente vai responder a todo este imediatismo e superficialidade? Fazendo mais jornalismo e cada vez melhor.”
A jornalista ressalta, ainda, o papel social do jornalismo como sendo um dos pilares da democracia, destacando que, quando ameaçado, a própria sociedade é colocada em risco. Em sua fala à Sagaz, Arbex recorreu às palavras da também jornalista Fabiana Moraes, que resume esse compromisso ao afirmar: “A gente escreve não o que as pessoas querem ler, mas o que elas precisam ler e ainda não sabem”.
Daniela Arbex já afirmou em outras entrevistas, e reforçou o posicionamento em sua fala na noite literária, de que não escreve sobre tragédias e sim sobre as omissões que as ocasionam. Neste sentido, o papel primordial de suas denúncias é de construção de uma memória coletiva, uma vez que, para a jornalista, o Brasil não desenvolveu a cultura de construir memórias. Cabe, então, ao jornalista, o encargo de contador de histórias, uma vez que se elas não forem contadas estão fadadas ao esquecimento da população.
Apesar do importante papel social do jornalismo de qualidade, cutucar as feridas da sociedade não vem sem consequências. Daniela conta que a forma de se proteger de pessoas e instituições que possam querer calá-la é justamente se expor. Para a sua proteção, sempre assina as matérias que publica, desta forma ela constói “testemunhas” de suas denúncias. Em suas publicações, a jornalista já enfrentou gigantes como a mineradora Vale e o Clube de Regatas Flamengo, este último considerou o seu maior desafio. “Eu achei que a Vale fosse o máximo de risco que talvez eu correria na minha carreira, me enganei. O poder que o Flamengo tem é maior que o poder financeiro da Vale, que é a paixão movida por sua torcida”, destaca.
Durante a mesa literária, a dificuldade em acessar financiamento para a produção de reportagens de maior fôlego também foi questionada, uma vez que contas precisam ser pagas e são poucos os profissionais que conseguem dispor do tempo necessário para aprofundar nos temas. Sobre isso, Daniela ressaltou: “Nunca teremos os recursos que a gente quer, a boa notícia é que sabemos contar histórias”.
Daniela Arbex finaliza sua fala encorajando os jornalistas a saírem da zona de conforto e produzirem histórias com profundidade, uma vez que são essas que atravessam saberes, viram referência jornalística e apresentam relevância social. “Então a gente não precisa se preocupar com se adaptar a internet ou as redes sociais, a gente precisa continuar fazendo o que a gente faz. Como um trabalho jornalístico acaba virando uma referência histórica? Construindo narrativas que sejam socialmente relevantes com responsabilidade e só o jornalismo de qualidade faz isso. A gente lida com um produto que é muito perecível, mas a relevância do jornalismo é a permanência, é aquilo que fica através do seu trabalho e através da memória, mudando olhares e atravessando saberes”, finaliza a jornalista.


