Grupos institucionais, religiosos e até mesmo criado por empresárias, sem regulamentação, podem auxiliar nesse processo. O objetivo é impulsionar o crescimento e superar obstáculos da discriminação contra mulheres empresárias.
“Eu tive questionamentos sobre a minha capacidade de liderar um negócio e, principalmente… por parte da própria família.” Esse desabafo veio logo após uma pergunta sobre a opinião do pai, em uma entrevista realizada com uma jovem proprietária de uma loja virtual. Esse tipo de declaração evidencia um dilema social recorrente enfrentado por mulheres que buscam alcançar sucesso no universo empresarial, além de reforçar a necessidade de medidas eficazes para sua superação. Em Palmas, embora já existam iniciativas institucionais voltadas a esse propósito, uma forma alternativa ainda é uma novidade.
Com a recente desburocratização, e até mesmo com o constante estímulo midiático, cada vez mais pessoas têm se lançado no universo do empreendedorismo buscando realizar sonhos e ter sucesso no mundo dos negócios. No entanto, para as mulheres essa jornada é marcada por desafios como a conciliação entre a vida pessoal, geralmente com o papel de mãe e esposa, a gestão de recursos limitados e a constante luta contra a descriminação de gênero.
Apesar das mulheres representarem mais de 50% da população de Palmas, no final de 2024, a capital contava com aproximadamente 25.105 microempreendedores individuais (MEIs) registrados. Sendo 10.252 empreendedoras do sexo feminino formalizadas na cidade, o que representa cerca de 40,84% do total.

Tentando se equilibrar
Kivia Raquel, é contadora, modelo e proprietária da Loja Mavia Fit. Aos 24 anos já possui a empresa categorizada como micro empreendimento no ramo de roupas esportivas para mulheres e diversos relatos de desestimulação e obstáculos na sua carreira.
Até então estudante, estagiária e com um extenso histórico de notas máximas, Kivia, no momento em que decidiu empreender, sentiu na pele toda a dificuldade que é tentar ingressar nessa categoria majoritariamente masculina em Palmas: “Trabalhava no escritório contábil, tinha uma rotina corrida. Além de trabalhar o dia inteiro, eu ainda tinha alguns serviços por fora, com alguns clientes e ainda sim ganhava mal. E com essa correria eu comecei a deixar de cuidar no quesito de alimentação. Eu me alimentava de qualquer jeito, mal… com isso eu acabei emagrecendo bastante, cheguei a pesar 43 quilos, com 1,70m de altura. Inclusive com o diagnóstico, lógico, de desnutrição”, relata.

Ela conta que o estado físico
em que a junção das
várias atividades a deixou,
acabou sendo o estopim
para seguir seu
sonho: “A ideia surgiu,
primeiro, com o sonho
de empreender. Eu sempre tive
comigo o que eu queria, o
meu próprio negócio. Eu só
não sabia ainda por onde
começar, qual ramo começar.
[…] Ao me dar conta, (do seu
estado de saúde) eu iniciei
um tratamento e nesse
tratamento estavam
incluídas atividades
físicas. Então, eu optei
pela academia e com isso eu
comecei a montar os meus
primeiros looks de treino.
Nesse começo eu enfrentei
muita dificuldade para
encontrar tamanhos
que me servissem. Então,
eu comecei (a empreender),” explicou a jovem.
Além das dificuldades rotineiras de criar o próprio negócio, ela enfrentou outra barreira: a do preconceito de gênero. Ela conta que a discriminação veio, também, da própria família, por duvidarem da capacidade dela de conciliar as funções.
Simplesmente porque eu era mulher, porque também tinha homens da família que trabalham, têm os seus negócios e não tinham esse tipo de questionamento. Inclusive recebi apoio, mas na minha família não tem nenhuma mulher que começou a empreender, eu fui a primeira. E isso levou a muitos questionamentos, mas nunca chegou como uma dificuldade. Nunca me desmotivou, me motivava a querer sempre provar que eu conseguia,” relata Kivia.
Uma contrapartida com o mesmo dilema
Para uma mãe recém-solteira, não por sua escolha, mas por um marido que a deixou com um filho de 11 anos para criar sozinha; buscar uma fonte de renda se torna uma busca por uma “nova vida.” Edilene Ferreira não escolheu empreender. Ela precisou. A casa, antes sustentada pelo marido, agora dependia dela — e só dela. Sem rede de apoio, sem dinheiro, sem esperança: “Foi um desespero. Eu olhava pro lado e pensava: o que é que eu vou fazer agora?”
Edilene, “na casa dos 40” como ela prefere dizer, conta sobre seu início com uma certa dificuldade em se expressar devido ao tema ainda sensível para ela: “Esse é um grande problema… foi através de uma depressão. Uma depressão após a separação, né? Eu era sustentada pelo meu ex-marido. Quando ele foi embora, me vi completamente perdida. Foi aí que pensei: ‘Preciso fazer alguma coisa.” E fez. Pegou o que tinha em casa, preparou alguns salgados e saiu pela rua para vender.

A empreendedora explica que primeiro, vendeu na vizinhança. Depois, expandiu para a quadra, até que uma oportunidade finalmente se abrisse:
“Logo depois eu já comecei a procurar ir em empresas, foi quando eu fui pro Detran, que eu fui várias e várias vezes e eu levava não, até que um dia alguém resolveu comprar, gostou, espalhou pra todos da empresa, e foi aí onde Deus começou a direcionar e deu tudo certo.” relata Edilene.
Muito religiosa e esperançosa, Edilene também se viu diante de um corriqueiro problema social, mas não se deixou abalar:
“É… não tive ajuda e foi uma dificuldade muito grande, não ter apoio da família e ainda está sendo por não ter um marido do lado. Mas a gente tem a igreja que compra e indica pessoas. Tem que ter fé em Deus e Deus abre as portas. Ele encaminha tudo da maneira que tem que ser.”
“[…] e hoje, para a honra e glória do Senhor, eu tenho vários pontos. Tenho mais de 15 pontos frequentes, de todos os dias. Então, assim… é uma vitória para uma mulher, para vencer, para batalhar todos os dias. Não é fácil, mas a gente tem que vencer né.” finalizou.
Chá com mulheres empreendedoras: Alternativa?!
Por onde ia em busca de histórias de mulheres no universo do empreendedorismo informal, como o caso de Edilene, me falavam sobre um tal de “chá”. Às vezes citavam “reuniões” ou até mesmo “festas” realizadas por empresárias de Palmas para me informar sobre a existência de um grupo idealizado em Palmas.
Movido pela curiosidade, decidi investigar o que, de fato, era o chamado “chá” e, para minha surpresa, não foi difícil encontrar alguém deste coletivo. Por meio de um grupo de WhatsApp voltado à venda de produtos em Palmas, conheci Clemilda Carvalho, de 50 anos. Assim como Kívia, sua trajetória também é marcada pelas múltiplas funções. Após anos dedicados às artes circenses e à apresentação de um programa de fantoches em uma emissora local, Clemilda optou por se reinventar e ajudar outras mulheres que estavam na mesma situação.
O sonho de Clemilda era ter seu negócio dedicado a óleos terapêuticos. No entanto, a transição para a gestão de uma microempresa não foi simples. “Enfrentei muitos desafios, tanto com a falta de espaço quanto com a aceitação do mercado”, compartilha Clemilda. “Além disso, ainda lidamos com preconceitos por sermos mulheres empreendedoras. Por todo mundo ser contra na época, acabei nunca indo atrás de me formalizar. Hoje nem lembro mais que preciso dessa burocracia (risos) Mas sei que preciso”
Foi em meio a essas dificuldades que surgiu uma ideia: um espaço de apoio mútuo e solidariedade. Durante uma tarde, enquanto preparava um café para duas amigas em casa, Clemilda sentiu o impulso de transformar aquela pequena reunião em algo maior. Foi quando criou um grupo para mulheres que assim como ela, enfrentavam desafios para empreender. Nascia assim, em setembro de 2021, o “Chá com Mulheres Empreendedoras”, um grupo que ao longo do tempo, se transformou em uma rede vibrante de 876 mulheres em Palmas.
Clemilda explica que o grupo é uma grande rede de apoio, e apesar de não fazer parte de nenhuma instituição, gera grandes resultados: “É assim… todas são microempreendedoras… empresárias… autônomas… mulheres começando do zero, que estão crescendo dentro desse grupo, tipo, ele é um network, conexões…É um shopping no celular. Elas amanhecem o dia, é o dia inteiro. 24 horas por dia (risos) são mais de mil mensagens. Porque uma fala: alguém pode me indicar um pedreiro? A outra: alguém sabe quem faz bolo confeitado? Outra: Quem faz tal tipo de festa? O dia inteirinho. É um movimento,” Diz a fundadora com bastante orgulho.
O grupo, que utiliza plataformas como WhatsApp e Telegram para manter a comunicação constante, organiza encontros e eventos que vão além do suporte digital. Estes eventos proporcionam uma pausa na rotina intensa das empreendedoras.
O “Chá” como carinhosamente chamam as integrantes, acaba gerando uma grande movimentação no comércio e além de auxiliar as mulheres do ramo, também funciona como uma grande roda de conversa, com eventos e confraternizações sendo um escape da cansativa rotina como mães, esposas e empresárias:
“É uma coisa assim… estrondosa no comércio […] Temos um grupo. que está chegando a 900 mulheres e sempre temos chás presenciais no mínimo uma vez na semana. A casa não cabe esse tanto de mulher então vêm poucas né (risos) Cada uma traz um cardápiozinho delicioso, um lanche, e assim a gente faz conexões, network, cada uma traz sua exposição, seu cartão de visita, e gera assim uma mistura. Uma conhece a outra, uma fala o que vende, a outra também….”, Finalizou.
Resultados na prática
Jaqueline Reis, empresária do ramo de decorações, foi professora do ensino fundamental por muitos anos e se viu em uma situação de desespero com a chegada da pandemia. Ela destaca o impacto positivo que o Chá com Mulheres Empreendedoras teve em sua vida: “O grupo não é só para ajudar a empreender. A gente cria ali amizades. É uma soma, uma troca… é uma família né. E falar de mulher já sabe né (risos) Mulher é forte, é guerreira, então juntando essas mãos dadas dentro desse grupo ele vem somar forte sabe”, ressaltou Jaqueline, com bastante emoção.
Ela explica que mesmo irregular no mercado, sua empresa têm ido bem. Mas ressalta que isso não muda o fato de que precisa se registrar: “Trabalho informal ainda. Eu não tenho ainda uma loja (física), mas os clientes vêm até a minha casa, retiram o material e eu vou até o local e monto a festa. E tem dado super certo isso, porém hoje eu já quero abrir o MEI. Estou vendo a necessidade para ficar registrada e ter direitos sobre meu negócio”, apontou a empreendedora.
Jaqueline demonstra muita gratidão pelo grupo e explica que o apoio entre mulheres é fundamental para o crescimento profissional e pessoal em uma sociedade predominantemente machista: “Eu acredito muitas meninas ali do grupo tem esse efeito também nas suas empresas né, por que ali é cada um vendendo uma coisinha. Tem lojas, as que já abriram seus negócios… eu tenho uma amiga mesmo que agora já abriu a perfumaria dela depois que entrou no grupo, e assim eu fico muito feliz. o grupo é uma soma para cada um, né?”
mesmo com os maridos, filhos, todos ainda duvidando muito da capacidade das mulheres que estão lá, eu acredito que ele vai se expandir muito… Eu acredito que ele vai ficar muito reconhecido aqui no estado” finalizou.
Sebrae como aliando na autonomia feminina em Palmas
Nas cozinhas de casa, quartos transformados em lojas, sacolas cheias que vão de porta em porta, as mulheres de Palmas enfrentam jornadas duplas, triplas e, mesmo assim, constroem seus próprios caminhos. O que muitas ainda não sabem é da existência de programas que auxiliam nessa luta.
O Sebrae tem sido um braço forte por meio de ações voltadas exclusivamente ao público feminino. A instituição tem apoiado mulheres que decidiram dizer sim à liberdade de decidir seu futuro. Uma dessas iniciativas é o Sebrae Delas, uma trilha de formação e empoderamento que ensina desde marketing e precificação até a importância da autoestima e da presença.
“A gente ouve histórias emocionantes. Mulheres que precisaram escolher entre manter o próprio negócio ou continuar em relacionamentos onde o sucesso delas era motivo de conflito. Muitas optaram por si mesmas. E isso é libertador”, afirma Valbênia Lemos, analista do Sebrae em Palmas.
Muitas mulheres ainda têm receio de se formalizar — por falta de informação, medo do processo ou por estarem imersas na rotina intensa do trabalho. É nesse ponto que entra o papel do Sebrae. A instituição desenvolve campanhas, promove oficinas presenciais e online, além de oferecer programas como o Sebrae Delas.
“A maioria está no operacional. São elas que fazem, vendem, entregam, compram. Com tanta correria, falta tempo para parar e pensar na gestão da empresa”, relata Valbênia. “Muitas vezes, a empreendedora acredita que teve lucro, mas esquece de incluir a própria mão de obra, o transporte ou até o tempo investido como custo real do seu negócio.”
O Sebrae também oferece linhas de crédito exclusivas para mulheres, oficinas de precificação e atendimento, e até premiações que celebram histórias de superação, como o Prêmio Mulheres de Negócio.Para Valbênia, essas ações não só incentivam, mas também mostram às empreendedoras que o sucesso é possível — mesmo que seja necessário romper com barreiras culturais, familiares e emocionais.
“Já ouvimos relatos de mulheres que precisaram escolher entre o marido e o próprio negócio. E optaram por seguir empreendendo. Quando percebem que são capazes de gerar renda, de crescer, e que o parceiro não apoia, elas se libertam. E essa liberdade é um passo gigante,” afirma a analista.
Por onde começar?
Para esse apoio o primeiro passo é buscar o Sebrae. Seja presencialmente ou por meio das oficinas e plataformas digitais, a instituição é uma opção de suporte completo para quem deseja transformar um talento em um negócio sustentável.
“Mesmo quem não tem instrução formal consegue aprender a precificar, administrar, cuidar das finanças. Já atendemos mulheres que não sabiam mexer em computador, mas estavam com Instagram ativo e vendendo muito. O que elas precisam é de oportunidade e informação. E é isso que o Sebrae oferece,” afirma Walbênia.
A respeito da situação de Edilene e como ela gere seu comércio de salgados, ainda irregular na jurisdição brasileira, Walbênia destaca que: “pessoas que trabalham, principalmente em casa, ela precifica realmente o que ela colocou na hora de vender aquela coxinha. É o gás, a energia, a água, a mão de obra dela. Tem que ir para o papel, porque às vezes a gente percebe que elas colocam só o ingrediente. Ela precisava vir aqui pra gente analisar o produto dela, né, fazer justamente essa precificação, orientar ela,” finaliza.
Com toda dificuldade do processo e a invisibilização das mulheres nas decisões que movem a economia, empreender se torna, para muitas, um ato de resistência. Fomentar o empreendedorismo feminino acaba sendo uma forma de combater a desigualdade estrutural presente na sociedade.
Apesar dos inúmeros obstáculos que ainda marcam o caminho de jovens empreendedoras como Kivia e mães solo que guiam a economia de casa como Edilene, iniciativas sociais e institucionais, têm desempenhado um papel fundamental na construção de um ambiente mais acessível e igualitário. Com elas, vi o empreendedorismo feminino deixar de ser exceção e se consolidar como uma alternativa real e força transformadora. Basta que isso se torne realidade para todas.


