Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia formam uma das últimas fronteiras agrícolas do Brasil. Mas o avanço desordenado do agronegócio na região conhecida como MATOPIBA tem provocado danos ambientais tão severos que pesquisadores e instituições classificam o fenômeno como “desertificação acelerada”.
Segundo estudo divulgado pela Sudene em junho de 2025, a desertificação já compromete mais de 90% do território de alguns municípios da região. O relatório aponta práticas como desmatamento, queimadas, monocultura e exploração descontrolada da água como principais vetores do problema. Em 2024, o Cerrado perdeu 652 mil hectares de vegetação nativa. Deste total, 75% das áreas devastadas estavam no MATOPIBA, mesmo com queda no desmatamento em relação a anos anteriores, a região concentra 82% da destruição total do bioma, segundo dados do MapBiomas e do IBGE.
“Esse modelo de produção provoca uma exaustão ambiental: exaure recursos da natureza, como a água, degrada o solo, provoca desertificação”, afirma Júnior Aleixo, especialista em Justiça Climática da organização internacional ActionAid. Ele alerta para os impactos de um sistema voltado exclusivamente para exportação:

“O uso extensivo da terra, da monocultura e dos agrotóxicos causa a exaustão do meio ambiente. Essa superexploração é o primeiro passo para a desertificação”. Afirma o especialista.
A pesquisa projeta que, entre 2025 e 2040, o uso excessivo da água para irrigação pode comprometer até 40% da demanda futura por cultivo na região. Entre as populações mais afetadas estão as rurais e os pequenos produtores familiares, que enfrentam falta de água e empobrecimento do solo, isso em um país onde entre 12% e 18% da água doce do mundo está presente, mas quase 100 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança hídrica.
“A agricultura de larga escala voltada à exportação vem esgotando os nutrientes dos nossos solos”, alerta nota técnica da ActionAid, o documento também aponta para a ligação do agronegócio com setores como mineração e madeireiras: “Esse modelo baseado na super extração polui as águas e levanta questionamentos sobre o futuro: o que acontecerá com nossas fontes hídricas?”.
Aleixo ainda chama atenção para novos atores que vêm se consolidando no mercado de terras da região: “São fundos de investimento, fundos de pensão e empresas que não têm compromisso com o futuro ambiental, apenas com o lucro imediato”. Casos como o do fundo estrangeiro TIAA/Nuveen, que tem comprado milhares de hectares, são citados em relatórios internacionais.

Ludmilla Calado, geógrafa da Sudene, destaca a urgência de medidas preventivas: “O avanço da desertificação sobre o MATOPIBA acende um alerta importante. É urgente integrar conservação ambiental e produção agrícola”. Entre as ações em andamento está a reativação da Comissão Nacional de Combate à Desertificação, com metas estabelecidas até 2030. A Sudene também tem publicado boletins técnicos com sugestões de manejo sustentável, como plantio direto, sistemas agroflorestais e rotação de culturas.
Atualmente, estima-se que 39 milhões de pessoas vivem em áreas suscetíveis à desertificação no Brasil, muitas delas no MATOPIBA. A manutenção do atual modelo produtivo sem freios pode comprometer não apenas a sustentabilidade regional, mas a segurança alimentar nacional.
O governo federal ampliou o monitoramento por satélite, e estados começaram a receber verbas para a restauração ambiental. Apesar do avanço institucional, pesquisadores alertam: o tempo para evitar um colapso ambiental está se esgotando.


